Domingo, 27 de Maio de 2007

O BCP e Jardim Gonçalves

Uma das propostas que vai estar segunda-feira à votação dos accionistas do Millennium BCP é o reforço da blindagem dos estatutos de dois terços para 75%. A iniciativa está aqui e é de Jorge Jardim Gonçalves. O que não é de estranhar. Está em linha com o que foi a sua actuação, bem sucedida, desde a fundação do BCP. E ajusta-se à actual fase do BCP tentando protegê-lo da violenta onda de concentrações bancárias que se está de novo a viver na Europa.

 

Olhar para o interesse dos accionistas que querem investimentos a longo prazo e não para ganhos de curto prazo foi sempre a grande orientação de Jardim Gonçalves, sem a qual tenho dúvidas que o BCP tivesse chegado onde está hoje. Isso custou-lhe alguns conflitos, nomeadamente com accionistas fundadores do BCP como foi Américo Amorim.

 

Proteger o banco de ofertas ou accionistas hostis tem sido outra das linhas de actuação de Jardim Gonçalves. Passar de 66% para 75% não protege o BCP de uma Oferta Pública de Aquisição hostil mas obriga o oferente a gastar mais dinheiro correndo mesmo assim um elevado risco de fracasso.

 

Claro que os estatutos mais blindados têm custos para quem olha para o curto prazo: ganha-se menos dinheiro com a especulação sobre títulos do BCP. E as acções do BCP valem menos que as de um banco com iguais características mas sem limites ao exercício do direito de voto. É natural que investidores puramente financeiros como Joe Berardo estejam contra a iniciativa de Jardim Gonçalves.

 

O BCP está hoje mais exposto a uma OPA hostil que antes do lançamento da Oferta sobre o BPI. Mas não é apenas esse facto que encontra racionalidade na iniciativa de Jardim Gonçalves. A Europa está a ser abalada por uma violenta onda de concentrações no sector financeiro.

 

No dia 20 de Maio dois bancos italianos, o Unicredit e o Capitalia anunciaram a sua fusão num negócio de 22 mil milhões de euros e criando assim uma das maiores instituições financeiras de Itália. Todos conhecemos bem a actuação proteccionista da Itália - que não é excepção no Mercado dito Único.

 

Ao mesmo tempo assistimos a um cerrado ataque ao holandês ABN Amro. A oferta amigável de que foi alvo por parte do Barclays - avaliada em 61,9 mil milhões de euros- poderá esta semana ter uma rival através da oferta, desta vez hostil, de um consórcio liderado pelo Royal Bank of Scotland e no qual está o Santander e o Fortis (accionista do BCP com 4,94%). E que pretendem repartir o ABN por si.

 

Esta era de facto a pior altura para o BCP ficar vulnerável a OPA's. E com este quadro compreende-se o que faz ainda correr Jardim Gonçalves. 

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Publicado por Helena Garrido às 21:18
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4 comentários:
De Pedro Neves a 28 de Maio de 2007 às 10:34
Bom dia Helena,

Passaram só algumas semanas desde que começou a actualizar o Notas de Economia, mas um destaque na Homepage dos Blogs http :/ blogs.sapo.pt ) e do próprio SAPO http :/ www.sapo.pt ), na área relativa aos blogs, já se justificava.

Como é nosso costume fazer com os blogs em destaque, deixamos aqui, nos comentários, os parabéns pelo destaque e o desejo de boa continuação :-)

Pedro Neves
De Helena Garrido a 29 de Maio de 2007 às 00:23
Obrigada Pedro
De Anónimo a 28 de Maio de 2007 às 13:01
Não acredito em atitudes protecionistas nem mesmo nestes casos, se realmente pretende-se a continuação muscular de um grupo que teve sempre em vista a investidor a medio e longo prazo o produto tem que continuar a ser sedutor para esse tipo de investidor e uma blindagem a meu ver esta sempre associada a uma fuga dos micro-acionistas e se por um lado dificulta uma OPA por outro atingindo-se um valor interessante leva a uma debandagem muito mais rápida, porque irei esperar 5 anos para atingir uma rentabilidade que posso atingir hoje com esta proposta? - apenas se eu não tiver alguma ideia do que farei com o capital realizado que continuarei - afinal será impressão minha ou uma blindagem diminura automáticamente a liquidez?
De Helena Garrido a 29 de Maio de 2007 às 00:22
Sim, de facto o reforço da desblindagem "desvaloriza" o banco: uma sociedade igual sem estatutos blindados terá, em princípio, uma capitalização bolsista superior e maior liquidez. No actual quadro de concentrações bancárias essa perspectiva pode ainda reforçar-se. Mas vai exactamente no sentido da promoção de ganhos de curto prazo que podem não significar a maximização da criação de valor a médio e longo prazo. O BCP não seria o que é hoje se não se tivesse protegido de compras hostis.

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